IA é arte. Sinto muito, sei que é terrível admitir. Quando alguém olha para alguma abominação de sete dedos, para uma face de expressão estranha, para uma composição grotesca e algo nela se mexe por dentro, por mais que isso cause repulsa em alguns, o que essa pessoa está sentindo é o atestado de que aquilo é arte. Não importa o quanto ela vá contra sua própria noção de bom vs ruim, de arte que eleva a alma e lixo que apodrece a mente, de cultura e ignorância. Grupo algum, por menor ou maior que seja, pode decidir excluir um “movimento artístico” apenas por que não lhe agrada. Só que esse nunca foi o problema. Arte de má qualidade, mal feita, sem técnica, sem intenção já existia muito tempo antes do chate gepetê. Os problemas que acompanham essa nova “ferramenta”, no entanto, são outros. Ela nos foi apresentada de maneira inofensiva. Ei, veja essas imagens engraçadas. Quando percebemos, elas começaram a substituir trabalhadores com seus prompts, algoritmos, roubos de dados e consumo de água. A máquina não cria imagens novas e originais, ela apenas compila, copia, evoca. E nós fazemos isso, claro que sim. Quando usamos referências, quando aprendemos com novos artistas, a cada momento que percebemos o mundo e o reproduzimos. Mas o que gera essa cópia? Se um humano copia ele é capaz de criar. É capaz de aprimorar de formas que uma máquina nunca poderia entender, pois ela entende bem de números, mas uma máquina nunca vai se sentir aflita com dois tons diferentes numa mesma tela. Ela não é capaz de inventar novas formas de expressão, pois não sente e não expressa. Quando digo que as imagens, textos e afins gerados por inteligência artificial são arte, o digo com tranquilidade, pois a arte reside no olhar de quem percebe. E negar isso é não apenas negar o óbvio, fechar seus olhos para a complexidade do que é a arte, mas também atrasar o debate em relação a essa ferramenta.
Serei sincero, nunca utilizei inteligência artificial com o propósito de criar, mas não condeno quem o faça, embora condene a prática. Nós NÃO precisamos de uma ferramenta que nos custe tanto para fazer tão pouco. Muitos artistas irão argumentar que utilizam a IA como forma de inspiração, de organização de suas ideias, como ponto de partida. Minha opinião sobre este comportamento é de que ainda não entenderam do que é feito o processo criativo. E isso não é uma falha moral dessas pessoas, é um plano que está sendo muito bem executado. O tal do processo criativo, monstro de mil dentes e garras pontiagudas. O domínio sobre o processo criativo é o que difere os hobbystas dos trabalhadores. E por motivos claros: arte, se não se adequa ao modo de produção, é apenas hobby. Se não há entrega dentro do prazo, se não atende ao cliente, se não responde rápido à demanda e com horário de trabalho “flexível”, você fica à margem. A indústria da arte, do artesanato ao cinema, é uma máquina de esmagar trabalhadores (como as outras indústrias) que os obriga a cada vez entregar mais rápido, em maior quantidade, enquanto sobre a qualidade não se fala tanto. As imagens, textos, vídeos feitos por IA talvez sequer existiriam, não houvesse a necessidade de mais e mais. Mais conteúdo, mais propaganda, mais produtos, mais lucro, mais capital. Artistas serão cada vez menos pagos, menos contratados, menos valorizados, enquanto o dinheiro estiver acima da conexão e expressão que a arte trás.
Claro, nada disso é novidade, mas fique comigo mais um pouco, logo chegarei lá. Arte não é, essencialmente, um produto, correto? Todos podem fazer e apreciar arte. Então por que não fazer arte? E quando “fazer”, por que de IA? Quando alguém escreve um prompt, o que essa pessoa está fazendo não é criar arte, ela está encomendando arte. Ela pode apreciar e gostar, mas ela não passa em nenhum momento pelo processo de criação de nada. Ela concebeu uma ideia e ordenou que outro alguém (algo) fizesse para ela. E o que ela perde nesse processo? Muita coisa. Tudo, basicamente. Se você está construindo um produto, tem que bater prazos e metas, sinceramente, faça o que você deve fazer na medida que você acredita que pode comprometer seu processo criativo. No entanto, alguém que faz arte por hobby, por que simplesmente PRECISA criar, como todos precisamos, digitar um prompt e receber uma imagem de merda é o equivalente a comer miojo de almoço. Às vezes a gente come? Sim. Mas imagine comer miojo todo dia? Só comer isso? E é isso que como sociedade ainda não entendemos sobre a arte. Criação artística é uma necessidade básica. Como comer, beber e dormir. Podemos passar alguns dias nos alimentando de miojo sem morrer, alguns dias sem dormir direito e continuar produzindo, ficar desidratado e ainda conseguir parar em pé, assim como podemos utilizar a IA para satisfazer nossas necessidades artísticas, mas desse modo, estamos comprometendo não apenas nosso bem-estar, estamos comprometendo nossa existência.
Você deve estar tentando me contradizer agora, se você é uma pessoa que não cria, que você não tem essa necessidade. Que você não tem dom, nem talento e arte é coisa só para artista. É a mesma coisa que um anoréxico diria sobre não estar magro (o suficiente). É claro que você acha que não precisa de criar, embora você com toda certeza consuma. Ir ao cinema, tirar fotos, decorar sua casa, usar o canva aqui e ali, são apenas alguns dos exemplos de formas de criação e expressão que nós encontramos nessa loucura do dia a dia, no entanto, com que frequência você faz essas coisas? E com que frequência você consome mais do que cria? Quanto de miojo você tem comido?
O miojo (que eu odeio, caso não tenho ficado claro), é a metáfora perfeita para arte de IA. É barato, acessível, instantâneo e não mata sua necessidade de nada, apenas mascara sua fome. Nós estamos famintos, cansados, estressados, reprimidos, com ideias, sentimentos e sensações que não vão a lugar nenhum, mas ficam presos na nossa garganta. Não sabemos nos comunicar, nem por palavras, nem por imagens, nem por símbolos. Andamos em círculos gritando uns com os outros, nos debatendo e sequer fazendo sentido de nós mesmos. E isso não é coincidência. Nós vivemos em uma sociedade programada para funcionar assim, para que a carga de trabalho máxima seja de ⅓ do nosso dia, quando não mais, para que o salário seja o mínimo, para que apenas o necessário para sobreviver e produzir seja atendido.
Isso não é de hoje, mesmo antes da IA esse é um modelo que vem sendo seguido já a muito tempo. Ninguém pode fazer arte, a não ser que seja para vender. E sempre sendo vendida com um filtro sobre o artista. Apenas a arte que agrada o capital é valorizada, incentivada, premiada e adorada. Isso nos mostra não apenas o que o capital espera de nós como trabalhadores, mas também como o restante da sociedade deve consumir. E parte de se revoltar contra essa indústria, esse modelo de sociedade é fazer aquilo que não nos permitem fazer. Arte também pode ser rebeldia, pode ser utilizada para impor que nossas necessidades sejam atendidas. Precisamos dançar, cantar, escrever, desenhar, precisamos nos tornar humanos completos. Precisamos marcar de tinta as ruas da cidade que nos devora, de pintar uns aos outros com aquilo que temos de melhor, de trazer à tona tudo que fica escondido quando você não tem tempo para escutar e falar.
Já comeu feijão com arroz hoje?